A MULHER É UM BICHO CURIOSO
Mulher é bicho curioso, transexual é cultural e macho é a porta pra fora... Mas mulher é bicho inteiro curioso. Como são as peças que a vida nos prega e dá. Quando criança achei que seria anexo bisonho ao universo feminino, dos babados, dos longuetes, das toiletes, das pinturas, das noivas, das mães e concursos de beleza: de tudo quanto fosse de mulher: ledo engano. Mulher é bicho de acalanto, de fazer ninar. De agradar, ao menos ao tentar. Mulher é dia-a-dia, vela pelos fracos, e ainda nem é isso que define o que é mulher − nada é. Engana quando se é menino e se tem quatro ou cinco. Mulher é bicho dos adornos, das pinturas, dos enfeites, mais que isso: mulher é bicho curioso, de uma falta que só. Mulher é bicho rebuscado, é bicho de contorno, e de saber lidar. É uma curva de não saber onde vai dar, mas “se ver uma curva, faça-a”. Ou volte por medo dela. Mulher abre gaveta só pra ver o que tem dentro. Mulher conta segredo − prazer de desvelar. Mulher é bicho que esconde, pra depois contar. Que cobre esperando desvelar. Mulher é bicho curioso. É bicho em que nem ela pode confiar. Deus me livre de ser mulher diante de mulher: pelo homem, qualquer homem, trai a outra e mais outra. Mulher é bicho da discórdia. E curioso: pergunta se tu “é” gay pra desconcertar, é curioso. Se tu é virgem, pra não desvirginar. Se “tu é” brocha, “não por nada, a amiga quer saber”. “Qual amiga?” “Ora qual amiga... Qualquer uma, até inimiga”. Mulher é bicho muito curioso.
Nunca pensei que fosse eu na vida passar ao largo de mulher. De tanta mulher. Toda hora mulher, bicho curioso, vem dizer coisa de mulher que eu não sabia. Sutiã, eu nada sei de sutiã, usa-não-usa, lingeries, tigresas, couros de cobra − outros bichos. Mulher é bicho curioso. Eu nada sei de quanto dói o parto, e do papel de seda, ou de arroz, de quando rasga lentamente. Nada sei quando menstrua, até sei duma que ovula sempre em dois, matreira que só, para superpovoar a terra. MaIs não sei do que se passa. Uma vez eu vi algo para fora na lixeira − não foi aqui foi na Bahia. “Meu Senhor do Bonfim Nossa Senhora!”, na Bahia tudo pode e tudo desconcerta. Mulher em banheiro só pra homem, fila que se forma “au delá”. E sai xingando, reclama cheia de razão, como chora sem por quê. Não sei nada de banheiros femininos. Dizem todos são piores que os nossos − nada sei dos segredos femininos. Tenho uma gata, e com ela eu durmo de conchinha. Sonhei, quando ela fizesse 16, pisaria a pata preta no fuso de uma roca, e se faria linda e jovem mulher − estonteante, dilacerante, contundente e só pra mim. Se chegar até lá. Se não chegar, o feminino para sempre fechado em copas. E nada saberei. Apenas que eu vim dela; se dela venho tenho dela algo em mim. Da civilidade dos homens saberei montões, da mulher, apenas... que é um bicho muito curioso.
