quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Nachlass Herbst 1881, V 2, 14 (2)

14 [2]

Quão frios e estranhos até agora nos têm sido os mundos que a ciência descobre! E quão diferente por exemplo o corpo, tal como o experimentamos, como o vemos, sentimos, como o tememos, e com ele nos maravilhamos, e o "corpo" tal como nos ensina a anatomia! As plantas, o nutrir, a montanha, e o que nos vem mostrar a ciência — tudo é um novo mundo recém descoberto e totalmente estranho, contradição maior com nossa sensação! E no entanto "a verdade" deve paulatinamente se encadear em nosso sonho, e devemos nós então sonhar de verdade! —

Friedrich Nietzsche, Fragmento póstumo do outono de 1881,
tradução de Saulo Krieger




14 [2]

Wie kalt und fremd sind uns bisher die Welten, welche die Wissenschaft entdeckte! Wie verschieden ist z. B. der Leib, wie wir ihn empfinden, sehen, fühlen, fürchten, bewundern und der “Leib” wie ihn der Anatom uns lehrt! Die Pflanze, die Nahrung, der Berg und was uns nur die Wissenschaft zeigt—alles ist eine wildfremde eben entdeckte neue Welt, der größte Widerspruch mit unserer Empfindung! Und doch soll allmählich “die Wahrheit” sich in unseren Traum verketten und—wir sollen einmal wahrer träumen! —

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Hortênsias azuis

O último verde em um pote colorido
é tal e qual estas folhas, secas em aspereza indiferente,
atrás das umbelas das flores, em si não trazem
nenhum azul, só o refletem de longe.

Reflexos fazem lacrimejar, e tão imprecisos,
como de novo quisessem se perder,
lembrando os velhos papéis de carta
onde há o amarelo, o violeta, o cinza;

Lavado como em avental de criança,
A que se pôs de lado e não mais se usou:
Assim se sente uma pequena duração de vida.

E eis que renovado em uma das umbelas
se revela o azul, e então se vê
a sua cor inquieta a se refestelar no verde.

Rainer Maria Rilke
,
tradução de Saulo Krieger




Blaue Hortensie


So wie das letzte Grün in Farbentiegeln
sind diese Blätter, trocken, stumpf und rauh,
hinter den Blütendolden, die ein Blau
nicht auf sich tragen, nur von ferne spiegeln.

Sie spiegeln es verweint und ungenau,
als wollten sie es wiederum verlieren,
und wie in alten blauen Briefpapieren
ist Gelb in ihnen, Violett und Grau;

Verwaschnes wie an einer Kinderschürze,
Nichtmehrgetragnes, dem nichts mehr geschieht:
wie fühlt man eines kleinen Lebens Kürze.

Doch plötzlich scheint das Blau sich zu verneuen
in einer von den Dolden, und man sieht
ein rührend Blaues sich vor Grünem freuen.


Rainer Maria Rilke

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O cisne

Esse labor de ir além, rijo e atrelado
Pela via do que inda não se fez,
Como do cisne o passar que não se deu.

E a morte, este já não se apegar
àquelas razões, nossas de todos os dias,
é como quando se assenta receoso —:

pelas águas, que lhe recebem serenas
e, como venturosas e passadas,
fecham-se-lhe atrás, fluxo em fluxo;
e o cisne, pelo infinito manso e mais seguro,
mais maduro, sempre, e mais real,
estira-se, condescendente e resignado.

Rainer Maria Rilke (1875-1926),
tradução de Saulo Krieger



Der Schwan


Diese Mühsal, durch noch Ungetanes
schwer und wie gebunden hinzugehn,
gleicht dem ungeschaffnen Gang des Schwanes.

Und das Sterben, dieses Nichtmehrfassen
jenes Grunds, auf dem wir täglich stehn,
seinem ängstlichen Sich-Niederlassen -:

in die Wasser, die ihn sanft empfangen
und die sich, wie glücklich und vergangen,
unter ihm zurückziehn, Flut um Flut;
während er unendlich still und sicher
immer mündiger und königlicher
und gelassener zu ziehn geruht.

Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As flores da noite

A noite é feito um mar tranquilo,
prazer, pesar e do amor o soar
vêm a nós tão emaranhados
no aliviante quebrar das ondas.

Desejos são feito nuvens,
navegam pelos espaços tranquilos,
pois ao vento morno quem reconhece
se é pensamento ou sonho é? —

Agora fecho coração e boca,
tanto gostam de se queixar às estrelas:
pois cala manso no fundo do coração
o aliviante quebrar das ondas.


Joseph von Eichendorff,
tradução de Saulo Krieger



Die Nachtblume


Nacht ist wie ein stilles Meer,
Lust und Leid und Liebesklagen
Kommen so verworren her
In dem linden Wellenschlagen.

Wünsche wie die Wolken sind,
Schiffen durch die stillen Räume,
Wer erkennt im lauen Wind,
Ob's Gedanken oder Träume? -

Schließ ich nun auch Herz und Mund,
Die so gern den Sternen klagen:
Leise doch im Herzensgrund
Bleibt das linde Wellenschlagen.


Joseph von Eichendorff

domingo, 6 de novembro de 2011

Os ouvidos finos de minha mãe

Estavas sozinha.
Pelo buraco da fechadura eu te via
À luz do bruxuleio débil
Do lampião, em horas avançadas.

Por que eu assim, ali parado, só, e sem entrar?
E com ardor ansiava
E queria, que tivesse de ser assim,
que eu acarinhasse inda uma vez a tua fronte
E ternamente sussurrasse: como eu te amo.

A velha e nefanda timidez,
Vergonha de a ti revelar meu coração,
tortura-me sempre novamente
e insone permaneço, na duradoura noite,
a perscrutar, no silêncio,
Se estará desperta a alva cabeça.

E mais uma vez eu sorrio mansamente:
O que te inquieta
ela bem o sabe,
tem ouvidos finórios,
e ouve a quantas bate o teu coração,
ainda que dos sons, entre eles o mais surdo
passe calado em seus lábios.


Gustav Falke, (1853-1916),

tradução de Saulo Krieger




Die feinen Ohren meiner Mutter

Du warst allein,
ich sah durchs Schlüsselloch
den matten Schein
der späten Lampe noch.

Was stand ich nur und trat nicht ein?
Und brannte doch,
und war mir doch, es müßte sein,
daß ich noch einmal deine Stirne strich
und zärtlich flüsterte: Wie lieb ich dich.

Die alte böse Scheu,
dir ganz mein Herz zu zeigen,
sie quält mich immer neu.
Nun lieg ich durch die lange Nacht
und horche in das Schweigen -
ob wohl ein weißes Haupt noch wacht?

Und einmal hab ich leis gelacht:
Was sorgst du noch,
sie weiß es doch,
sie hat gar feine Ohren,
ihr geht von deines Herzens Schlag,
obwohl die Lippe schweigen mag,
auch nicht ein leiser Ton verloren.


Gustav Falke

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sedução (Lockung)

Não ouves o rumor das árvores
Lá fora, trás o silencioso pavilhão?
Não te atrai espreitar lá de baixo,
No pátio rente ao chão
Os riachos, para onde vão
A maravilhosa luz da luz
E ver os castelos silenciosos
De uma pedra assim mais alta, no rio?

Ainda não conheces as canções errantes
De épocas antigas e belas?
Elas tornam a todos despertar
À noite, na solidão da floresta.
Quando as árvores estiverem a sussurrar, sonhando,
Quando os lilases exalarem odores sufocantes
E no regato murmurarem ninfas —
Ora desça aqui, onde mora o refrigério


Joseph von Eichendorff
tradução de Saulo Krieger


Lockung

Hörst du nicht die Bäume rauschen
Draußen durch die stille Rund?
Lockt's dich nicht, hinabzulauschen
Von dem Söller in den Grund,
Wo die vielen Bäche gehen
Wunderbar im Mondenschein
Und die stillen Schlösser sehen
In den Floß vom hohen Stein?

Kennst du noch die irren Lieder
Aus der alten, schönen Zeit?
Sie erwachen alle wieder
Nachts in Waldeseinsamkeit,
Wenn die Bäume träumend lauschen
Und der Flieder duftet schwül
Und im Fluß die Nixen rauschen -
Komm herab, hier ist's so kühl.

Joseph von Eichendorff