sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Almas de todos


Sobre a mesa põe os fragrantes resedás
Traze as últimas sécias vermelhas
Vamos de novo falar de amor
Como naquele dia em maio.


Dá-me tua mão, quero apertá-lo em segredo,
E quando eu estiver entediado,
Dá-me ainda uma vez o teu doce olhar
Como naquele dia em maio.


Floresce e radia hoje em todos os túmulos,
Pois um dia ao ano livres estão todos os mortos;
Achega-te em meu coração, sê novamente minha
Como naquele dia em maio.


Hermann Von Gilm,
tradução de Saulo Krieger.



Maré na ilha de Fohr


Feito vento a soprar as nuvens, maré vazante
lentamente se põe cheia
e realça a sua canção de mar,
ardor fugidio de um sonho de outono
a se avivar junto aos fios de areia, —
se é fresco, pois, em sua ascese incendeia
o irromper, da gaivota, o ganido
em alva cintilância.

Suavizado, em estranhamento
se recolhe o passo do viandante.
Contornos recortados pela luz
têm como guia luzires distantes,
e deles a grandeza atrai radiâncias
na infusão de mar em mar. —

Cindida, nossa existência se anuvia:
Infinita. A gravidade de todas as costas.



Maria Gerth
(de “Wanderungen zwischen Traum und Zeit”
[Andanças entre sonho e tempo],
R. G. Fischer Verlag),
tradução de Saulo Krieger.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sobre as nuvens



E sempre de novo
quando me vejo cansado
de humanas faces,
e tantos espelhos
dos triviais sem fim,
os olhos soergo
sobre casas e árvores
em direção a vós, oh
pensamentos eternos do céu.
A sua grandeza e liberdade
sempre torna a me redimir,
e penso convosco
deixar-me ir, vencer terras e mares
e preso a vós
por sobre abismos, deparar o infinito
e dissolver-me, enfim
feito o pó,
quando eu, já sem senso de medida,
ver a voar grãos de estrelas
sobre os campos de profundidades abissais.


Christian Morgenstern
tradução de Saulo Krieger



An die Wolken


Und immer wieder,
wenn ich mich müde gesehn
an der Menschen Gesichtern,
so vielen Spiegeln
unsäglicher Torheit,
hob ich das Aug
über die Häuser und Bäume
empor zu euch,
ihr ewigen Gedanken des Himmels.
Und eure Größe und Freiheit
erlöste mich immer wieder,
und ich dachte mit euch
über Länder und Meere hinweg
und hing mit euch
überm Abgrund Unendlichkeit
und zerging zuletzt
wie Dunst,
wenn ich ohn' Maßen
den Samen der Sterne
fliegen sah
über die Äcker
der unergründlichen Tiefen.


Christian Morgenstern